Dec 4, 2008






Ali está ela no meio de Paris, sentindo-se senhora do mundo, dezassete anos acabados de fazer, bebendo o ar que lhe faltava para viver, esse ar que há anos esperava por respirar.
Filha de mãe italiana e pai português que tinha pertencido ao corpo diplomático, Maria do Rosário, nome que está no seu bilhete de identidade, tinha vivido em meio mundo, falava cinco línguas, alemão, italiano, espanhol, francês e inglês, línguas de países onde tinha vivido. Tinha dezasseis anos quando seu pai morrera. Tinha passado só um ano, mas a transformação na sua vida fora profunda.
Paris, foi a cidade pela qual ficou fascinada desde que ali tinha vivido durante 4 anos, dos oito aos doze. Sempre fora o seu sonho, sempre falara nele aos seus pais que nunca a tentaram demover, ir para a Sorbonne tirar Sociologia.
Agora sem pai e com a mãe a querer voltar para Itália, debilitada com o desgosto, concorrera a uma bolsa de estudo e conseguira ganhá-la. Ficaria mais perto da mãe.
Parada já no Quartier Latin, olha para um lado e para outro sem saber por onde se há de decidir, para começar a viver o sonho há tanto tempo acalentado.
Atravessa o Jardim do Luxemburgo e dirige-se à Sorbonne, para ficar a saber onde se vai instalar, pelo menos nos primeiros tempos. Tem de ver se arranja trabalho, porque a bolsa é curta para a carestia de vida que existe em Paris.
Gostava de mais tarde arranjar uma casa com uma ou duas colegas. Logo se veria.
Não dava pelas pessoas, que ao cruzarem-se com ela, a olhavam encantadas. Sabia que era bonita, mas ainda não estava consciente da sua profunda beleza, da sensualidade que transmitia, do ar exótico que os enormes olhos escuros contrastando com a pele muito clara lhe davam. O cabelo farto, comprido, dourado, onde os reflexos do sol abriam laivos arruivados e meio encaracolado davam-lhe um ar meio selvagem aliado a uma alegria e vivacidades naturais, o seu metro e setenta e cinco, pouco vulgar numa mulher nesse tempo, faziam que quem passasse por ela não ficasse indiferente a essa junção explosiva.
Atirou com os cabelos para trás e entrou decidida pela porta da frente da Universidade.
Hoje que era o primeiro dia em que estava sozinha em Paris, para cumprir um sonho e para comemorar a sua chegada queria ir a um dos célebres cafés.
A mãe, tinha-lhe falado de tantos, mas ela gostava de ir ao “La Closerie des Lilás”, matar saudades dos tempos em que lá ia com os pais, mas não tinha dinheiro suficiente. Resolveu então ir comer um crêpe a um dos restaurantes Breton, junto à estação de Montparnasse. A fome já apertava e começou-lhe a crescer água na boca só de pensar.
E lá foi sorrindo, de mapa na mão, andar tão leve que mais parecia que dançava ao som de uma qualquer música interior, do que andava.
Parou à entrada a olhar, estava cheio de uma multidão de gente nova, risos pelo ar, vozes que de vez em quando se alteavam, gargalhadas que estalavam, até que foi chamada por uma rapariga que já estava sentada a uma mesa com diversa companhia.
Tinham-se conhecido nesse dia na faculdade, quando estavam as duas, ela e Eloíse, Lise para os amigos, como logo lhe dissera, a tentar saber onde ficavam as instalações que iriam ser as suas casas durante uns tempos. Lise que agora a chamava, era da Bretanha, extrovertida e simpática. Feliz por não ficar sozinha, avançou de encontro àquelas caras joviais e alegres.
As apresentações foram informais como era próprio daquelas idades.
Já estava em Paris há três meses, o dinheiro rareava e conseguira arranjar emprego como criada de mesa de um restaurante.
Lise já tinha alugado uma casa com uma espanhola, Pilar, mas como precisavam de uma terceira pessoa, desafiaram Maria do Rosário, que com pena disse não ter ainda dinheiro para o fazer. Avisaram-na que esperariam por ela.
Estava um dia a servir no restaurante, quando lhe fizeram uma proposta para ir fazer testes para a agência de modelos, Élite, que acabava de ser fundada por John Casablanca e Alain Kittler.
Nem pensou duas vezes e no dia seguinte apresentou-se na Élite, para fazer os testes exigidos.



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