Dec 5, 2008






Foi interrompida por Diogo, acabado de chegar do golfe que se dirigia a ela para a beijar
- Já se foi embora o maldito do jornalista? A um sábado? Ou foste tu que arranjaste a saída perfeita para não irmos ao Alentejo passar o fim-de-semana? pelo teu ar sonhador e a ouvires Mahler, pôs-te a pensar…
- queria que lhe desse a exclusividade, para publicar semanalmente no seu jornal, de um livro que haveria de escrever sobre mim, o pobre coitado
- como? Propôs-te escrever um livro sobre ti? Ah! ah!ah! como te conhecem-te mal!
-foi pior, sabes, porque começou por dizer que seria eu a escrever a minha autobiografia, para depois dar a entender que o melhor seria ser ele a faze-lo por, talvez, eu não ser capaz de o fazer. Julgam que têm ideias brilhantes…..se eu quisesse uma autobiografia já o teria feito, não?
- tu é que tens a culpa destas coisas se passarem. Se convivesses mais…..
-mau, agora sou eu a culpada dos jornalistas virem com ideias pseudo brilhantes?
- repara, meu amor, tu és um mistério para todos, ainda o és para mim, e a tua Agência além de misteriosa, desperta comentários menos benévolos e tu recusas-te a pôr-lhe fim.
Roxanne com ar enternecido e coquette
- mas não é esse meu mistério, que te faz estar desde sempre apaixonado por mim?
Diogo olha aquela mulher que lhe despertou tanta curiosidade, por não lhe ter ligado nenhuma, num tempo em que a maior parte das mulheres lhe caía nos braços, sempre rodeada de uma auréola de mistério, sem nada dizer de si, tinha-o fascinado, espicaçado a sua curiosidade, tinha feito com que quisesse ir buscar a lua para lhe dar de presente, tinha feito com que a pedisse em casamento vezes e vezes sem fim, dizendo-lhe sempre que não, tinha-o feito apaixonar-se profundamente por ela, voluntariamente preso, sem nunca mais olhar para outra, e sem se arrepender um minuto que fosse dos últimos vinte e oito anos. Aquela mulher que vai fazer 58 anos, fios prateados a aparecer naquele cabelo de cor estranha, entre o louro escuro e o arruivado, que tem uma inteligência fulgurante, um encanto raro, foi sua namorada durante 20 anos, vivendo cada um na sua casa.
Passa-lhe a mão pela face com ternura imensa
- é sim, tens razão. Vou tomar banho. Depois podemos ir almoçar?
Diogo tinha sempre a mesma mesa reservada no Gambrinus. Almoçava lá todos os dias da semana. Roxanne aos sábados, quando não ia para a Agência, e aos domingos acompanhava-o nesses almoços em que a habituara, que eram um prazer, onde continuavam a flirtar, como se não se conhecessem há 28 anos, como se não fossem namorados há 20, como se não vivessem juntos há quatro anos, quando ele mais uma vez lhe pedira para casar com ele ….ainda ouvia a sua resposta
- mas com uma condição. Casamento nunca, não casei até aos cinquenta quatro anos não é agora que o vou fazer, mas poderíamos passar a viver juntos.
Ele atónito a olhá-la, sem lhe responder
- queres ver que só fazes o pedido, porque sabes que te digo sempre que não? Já estás arrependido?
- extasiado, estou extasiado e fiquei sem saber o que te responder. Vais viver comigo?
- não Diogo, tu é que vens viver comigo. É mais cómodo. Assim só uma pessoa muda de sítio, se fosse eu a mudar seriam muito mais pessoas e nem sei se caberíamos na tua casa.
Mas hoje, Roxanne está distraída, pensativa e nem dá por Diogo já ter escolhido o vinho. Ele toca-lhe na mão, ela com ar sonhador, de quem em pouco tempo percorreu memórias importantes
- sabes, só fui modelo da Élite durante quatro meses, quer dizer, estive lá cinco, mas o primeiro foi a aprender a pintarmo-nos, a andarmos de saltos altíssimos, a sabermos tirar o casaco, pô-lo pelo meio das costas….enfim a termos o tal glamour e sabermos valorizar o que vestíamos, desaparecendo a nossa personalidade.
- sei isso tudo, Roxanne, mas não por me teres dito. Na altura não falavas de ti, ainda hoje falas tão pouco da tua vida passada, mas fui-me informando…..e quando te vi na capa da Vogue….e no seu interior….
Roxanne sorri
- sim, entreteste-te bastante, nesse tempo, quase te fizeste detetive….
- nem deste por mim….quando já não me saías do pensamento. Ia pensando em ti, enquanto te procurava noutra vida
- estás enganado, Diogo, dei sempre por ti, desde o primeiro dia. Era difícil não dar….os telefonemas, os convites, aparecias sempre onde eu estava
- felizmente eras amiga da Teresa, da qual eu era como irmão
- que me pressionava quase mais do que tu
- ainda não sei porque saíste da Élite
- não tinha tempo para estudar. Estavam os exames à porta e tive de desistir. Ganhei bem durante esses meses, mas o meu objectivo era o curso e não ser modelo. Mas foram fundamentais para o meu futuro esses meses. Ninguém imagina o que aprendi na Élite, o agradecida que lhes estou e o que me serviu durante o resto da minha vida o que ali aprendi.
Mas depois das férias, ou arranjava outro emprego, ou teria de sair da casa que partilhava com a Lise e com a Pilar. Foram elas que me arranjaram o novo emprego.
- tenho de telefonar para o Público, a agradecer ao jornalista, de quem ainda não sei o nome, a proposta que te fez
- como?
- nunca falaste tanto do passado e nem te fiz uma única pergunta
- isso é da idade! Além disso não fixei o nome dele.
Continuaram o almoço bem-dispostos, mas depois de pedirem as sobremesas, Roxanne abstraiu-se mais uma vez
- estás ainda em Paris?
- não, não. Sabes? estou a pensar em começar a abrandar lá na Agência.
Olhou-a pasmado
- estás doente? há alguma coisa que eu não saiba? Perguntava enervado, com medo, ela que era tão fechada em tudo o que lhe dizia respeito
- não, meu querido, mas gostava de começar a passar trabalho para a Cris….



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